Prefácio

Aqui, neste quarto escuro e úmido, começo a escrever para satisfazer minha alma e para tentar tirar o amargo sabor de minha boca. Estou sentando em uma cadeira confortável, enquanto ouço a chuva que lá fora cai. Algo que aprendi com o tempo, é que eu só fico feliz, ou tenho um pouco de felicidade, enquanto caminho na chuva; e na realidade sinto por estar perdendo-a neste instante A vida, ou pelo menos, a minha não-vida se resume em uma vasta solidão qual eu não tenho controle. Minha criança dorme no quarto ao lado, posso ouvir sua respiração deste comôdo. A vida pela qual fui forçado a viver não era aquilo que um dia eu cheguei a imaginar. A dor não tem preço, mas, meu caro leitor, não imagine que eu sou alguém que fica se lamentando por viver ou por ainda caminhar pela Terra, além do mais, eu tenho a opção de me matar. Ou deixar que você, meu mais novo amigo, decida meu destino. Aqui, nestas páginas amareladas pelo tempo, na escrita corrida, descobri que a minha única culpa era de fazer bem meu trabalho: Matar.


Chamo-me Raphaël Vigée-Lebrun, e a minha história irei contar, talvez para passar meu tempo revivendo minhas trágicas memórias, talvez, tentando deixar algo meu para o mundo, quem sabe. É um prazer, meu adorado leitor e devoto melhor amigo.



De seu Anjo Caído,


Raphaël Vigée-Lebrun.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Demétria (Capítulo 3)

Uma das senhoras que mais me recordo foi aquela, com qual atingi minha maturidade. Era uma linda francesa, parisiense de nascença – o que era bem perceptível pelo sotaque, coisa que reparei de imediato quando a conheci. Havia se mudado para Alemanha, há pouco tempo, aliás. Era deslumbrante, a forma que andava, a sensualidade que usava quando falava o alemão com certa dificuldade, e era até mesmo um apelo sexual quando ela tentava fazer a pronuncia correta chamando toda atenção para seus lábios carnudos e sempre pintados com o carmim. Chegava ser obsceno. Chamava-se Demétria.


Madame Demétria, para mim, como exigia sempre, mesmo na cama.


Ela era muito calma e séria, serena diria. Tinha cada frase de efeito planejada e sabia calar qualquer um com a maior sutileza, até mesmo meu pai – o que era bem difícil, eu devo confessar. A primeira vez que a vi, ela estava saindo do escritório dele agradecendo-o por serviços prestados. Sua voz invadiu a sala de espera, e seu olhar tomou a atenção de todos que se sentavam naquele velho sofá de couro.


Quando ela colocou os olhos em mim, abriu um imenso sorriso emoldurado por aqueles lábios... Ah! Aqueles lábios eram desejáveis, poderiam dar alucinações a qualquer um que se quer os olhasse... Na verdade, não sabia dizer que tipo sorriso era, pois estava misto de intenções. Intenções que iam muito além de qualquer uma que já tinha tido contato até então. Era novo e tentador. Uma sedução nova. Um jogo novo.

Cumprimentei-a e ela saiu pela porta com um rebolado que chamava muito a minha atenção, não só a minha, mas sim de todos a nossa volta a não ser meu pai.

Perguntei-o quem era ela... Ele não respondeu. Então, alguns dias se passaram até que eu a visse novamente. Esses dias foram um pouco vazios, ela não saia da minha mente. Foi a primeira que me interessou de forma diferente. Contava horas, minutos para vê-la, mas meu pai, que havia percebido minha fascinação, fez de tudo para que eu não a visse. Porém, certo dia ele precisou me mandar.


Era um dia bem gelado, a neve caia pelas ruas enquanto eu caminhava calmamente pelas calçadas. Berlim continuava agitada, mesmo com o frio. Essa cidade nunca parava, mesmo em tempos pós-guerra ela parou. Sempre amei minha cidade. Berlim geralmente freqüenta meus sonhos até hoje.

Lembro-me daquele dia muito bem, como se o vivesse todo tempo em minha memória.

Não era um dia muito agitado no escritório, então entregaria isso e voltaria para casa, estava calmo e ao mesmo tempo ansioso. Vê-la novamente... Deus havia sido piedoso comigo, e fazendo meu pai me dar essa encomenda - pensava. Eu estava louco para revê-la novamente.


Quando cheguei em seu prédio, pedi para o porteiro deixar-me entrar. Era um edifício de luxo e de bom nome, muito conhecido – já hoje esquecido pelo tempo. Preferi não subir pelo elevador porque além de medo, ela morava no segundo andar. Sempre fui um pouco medroso, em relações a alturas. Nunca fui muito adapto a elas, e talvez até hoje eu evite-as, apesar de todos os apartamentos que hospedo serem coberturas.

Lembro-me até hoje o número de sua casa... Apartamento N° 12. Quando bati na porta, um homem alto e magro veio, parecia meio corcunda e era velho, pelo que pude perceber. Seu mordomo. Atendeu e arqueou a sobrancelha, com o ar entediado, até mesmo negligente. Ele deveria ter uns setenta anos para mais. Seu rosto estava caído pela velhice, e os olhos eram tristes e cansados. Parecia exausto. As mãos também tremiam ao segurar na maçaneta da porta, enquanto ele mantinha fixa seu olhar em mim com uma interrogativa no rosto.

Ele perguntou se poderia me ajudar – sua voz me saiu tão arrogante naquele momento -, e mostrei o recado que tinha para entregar. Falou que ele mesmo entregaria à Senhorita – não precisa comentar como fiquei feliz ao saber que ela era solteira? E eu disse que não, que estava sob minha responsabilidade em um tom bem cínico.

Deixou-me entrar, meio contrariado, mas deixou... Acho que se dependesse dele me mandaria aguardar no corredor, mas a Dona da casa poderia ficar brava. Esperei durante alguns minutos na sala sentando no sofá olhando para o teto distraído, quando ela apareceu na porta apoiando-se em sua lateral, com um sorriso radiante.

Então disse: “Menino Vigée-Lebrun”, em um sotaque francês bem carregado, o que me fez sorrir. Sempre adorei o francês, e posso dizer que depois conhecer Demétria, eu fiquei ainda mais apaixonado.

Fui ao seu encontro e beija-lhe a mão como uma forma de comprimento, via sempre em teatros e em peças, achava bem agradável. Foi a primeira vez que fiz isso e ela riu, um pouco convencida que lidava com um principiante.

Mostrei-lhe o papel de meu pai e ela pediu para que eu me sentasse sem dar a mínima importância a minha missão. Nem eu dava, na verdade.

O apartamento era de fato muito bem mobilhado e aconchegante, os sofás eram grandes e macios, afundei-me em um deles, enquanto a observava. Era tão felina. Ela se dirigiu ao bar e perguntou se eu bebia algo... Então respondi o que ela quisesse me oferecer eu aceitaria. Bem, ela deu um sorriso malicioso nessa hora. Olhava-a desmedidamente, sem me importar se estaria sendo mal-educado ou não. Trazia um copo de porte alto e fino, bem detalhado com fios de ouro e entalhado lindamente, para mim com alguma bebida destilada, que eu ainda não sabia o nome.

Ela disse seu nome, enquanto ia buscar outras coisas no bar. Absinto. Ela se sentou ao meu lado, enquanto colocava o açúcar no copo e logo água. Sorridente, deu um dos copos em minha mão. Não tinha idéia do que aquela bebida poderia ser, só mais tarde naquela noite eu descobri seus efeitos reais.

Perguntei-lhe porque havia deixado a Paris e ela simplesmente não respondeu, e estava começando a me irritar todo mundo ignorar minhas perguntas. Meu pai fazia o mesmo quando tocava em seu nome. Ela também era uma máscara de mistérios.

Ela então me perguntou minha idade.


-16 quase 17... – disse-lhe quase gaguejando, já um pouco tonto com a bebida.


Ela olhou com um rosto quase materno e começou a fazer perguntar indiscretas. Eu sempre fui firme com todas as mulheres que me assediavam, mas essa... Essa era diferente. Ela mexia o cabelo de forma diferente, sorria de forma diferente, andava e falava de forma diferente. Até seu cheiro era diferente – vim a descobrir que era uma fragrância japonesa, usada por gueixas da época. Era algo extremamente sensual.

Então, em poucos minutos já estávamos pelo chão rolando feitos dois animaizinhos selvagens. Devo confessar que ela me iniciou, verdadeiramente na minha vida de homem. Foi a primeira mulher da minha vida. Tudo mudou, não gostava mais de jogos com senhoras ou suas filhas, jogos de olhar. Eu queria mais. Queria sempre mais, ela me fez perceber que eu não deveria me prestar como objeto mais, mas sim como manipulador.

Quando voltei para casa naquela noite bem mais tarde, quase ao amanhecer, meu pai esperava-me na sala com um rosto desinteressado e a me ver passar pela porta arqueio as sobrancelhas. Então perguntou por que eu havia demorado tanto. Sua voz sempre foi séria, fria e inflexível e naquele momento parecia mais cortante do que nunca. Não era a toa que era tão bom advogado, ele intimidava as pessoas naturalmente só com se jeito de ser. Mas, não queria falar para ele o que tinha acontecido.

Inventei uma desculpa qualquer de ter ido beber com uns amigos e acabei perdendo a hora. Além do mais ele nunca aprovaria, do que me valia levar uma bronca naquele momento também? Ele sabia do meu interesse por Demétria, aliás, sabia de todas as minha aventuras. Nem sempre se importava, até ajudava às vezes quando eu pedia. Mas ela em questão, ele reprovava terminantemente em todos os aspectos possíveis e impossíveis. Ele se levantou e me rodeou. Observava-me da cabeça aos pés, procurando algum vestígio que me incriminasse. Finalmente disse que eu estava cheirando a bebida mesmo, mas não entendia das roupas amassadas. Estava quase suando quando lhe disse que nos havíamos ido a um bordel também. Estranhou, por que nunca havia visto prostituas com perfumes importados. Cheque-mate. Quase quis perguntar se por o caso ele conhecia o cheiro delas tão bem para saber, mas seria uma falta de respeito intolerável. Preferi me calar, e naquele momento foi o que me pareceu mais sensato.

Ele novamente arqueou as sobrancelhas e deu uma risada debochada de mim, aliás, deu até um tapinha nas minhas costas. Então foi para o quarto dormir, alegando estar cansado. A noite foi passada inteiramente desacordada, ficava pensando nela e na mentira que havia contado ao meu pai, que sempre fora um grande amigo. Eu sempre tive um grande respeito por ele. Hoje em dia, falando, é algo raro... Algo que eu acabei reparando, naqueles tempos certas coisas que fizéssemos e falássemos era muito desrespeitoso, mas agora... É tão banal.


Então, na manhã seguinte no escritório quando seu primeiro cliente saiu, entrei para conversar com ele sobre o ocorrido. Ele simplesmente continuou a ler o livro que precisava ser relido e disse que já sabia, e que tinha observado o olhar dela a me ver na primeira vez que esteve aqui. Fiquei pasmo então, dei uma risada, já devia imaginar que ele sabia. Era mais astuto do que eu jamais seria. Ele conseguia saber se alguém mentia ou não só pela sua voz ou pelo vocabulário que usava – as pessoas tendem a ficar mais sérias ou mais desleixadas quando estão nervosas.

Ele olhou por baixo para mim e disse que não era para me envolver com ela... Além de ser uma mulher bem mais velha, era uma cortesã francesa muito conhecia porque havia se mudado para cá para ser amante de um político importante na época, não vou citar nomes, seria como revirar um passado já esquecido.

Disse que não a veria mais, mas... Digamos...Nunca fui de acatar ordens impostas pelos outros, e isso incluía meu pai, infelizmente.

Algumas vezes ao mês ia a sua casa lhe fazer uma visita, o que era agradável para ambos. Demétria sempre era carinhosa comigo, e de certo modo... Muito envolvente. Sentava-se ao piano, nua logo após de termos relações e tocava. Às vezes e mostrava algumas partituras que escrevera. Subestimavam muito seu talento, devo confessar, por isso nunca chegou a mostrar a ninguém suas lindas músicas, a não ser para mim. Ela se apaixonava por. E eu estava encantado com ela, mas logo... Perdeu a magia. Criei grande afeto por ela, a desejava, mas não a amei com ela chegou a me amar.

Foi com ela que ouvi pela primeira vez Sonata ao Luar... O que virou uma obsessão para mim. Havia algo naquela música que me envolvia, além de que Beethoven era um grande compositor, sabia como tocar a alma das pessoas, especificamente a minha naquele momento. Ela tinha um jeito de mulher madura e ao mesmo tempo de menina sapeca (com os íntimos e isso não incluía seus clientes). Gostava de estar com ela, e não necessariamente estar nela. Eu cheguei a amá-la, mas nada que me machucasse por inteiro se ela partisse (Mentira, eu sentiria muito a sua falta).

Meu pai sabia dos encontros e cada vez que percebia as marcas de batom – um vermelho escarlate, que apenas ela usava -, me olhava de forma distante e irritada, evitando falar comigo o tempo todo que freqüentei a casa dela. Até o dia que completei 18 anos, ela voltou para França se despedindo de mim com um longo beijo e uma noite inesquecível, ao amanhecer antes de ir embora sussurrou em meu ouvido que me amava e um dia voltaria.

Ela nunca voltou.

Foi morta durante o caminho por um assassino de aluguel, mandado pelos inimigos do político, qual que era amante, eu vim, a saber, bem mais tarde. A única coisa que me restou dela foi em um caderno um versinho que ela fizera para mim, uma flor seca e murcha ente as folhas amareladas. E ainda o tenho, está guardado na minha propriedade em Berlim, a antiga casa de meus pais, escondido em meu quarto.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Infância (Capítulo 2)

No dia 13 de Novembro de 1918 eu nasci.



O país estava feliz e ao mesmo tempo triste, a Guerra havia sido oficialmente acabada apenas há dois dias. O país politicamente lamenta a imagem que passava para o mundo agora, como perdedores, mas o povo agradecia por não estar mais em conflito.


Meu pai, Max, passava o dia inteiro trabalhando enquanto minha mãe, Elga, o esperava em casa enquanto cuidava carinhosamente de mim. De todos os defeitos que ambos tinham, nenhum deles era equivalente ao seu jeito carinhoso e dedicado deles. Minha mãe, era uma mulher de porte e tinha uma expressão forte, mas intimamente era doce e boa, uma mulher caseira que gostava de cuidar de crianças na realidade, ninguém a imaginava assim, pois sempre tivera uma personalidade forte o bastante para dar adeus e se perder pelo mundo como ninguém jamais faria. Ao se casar com meu pai, ela mudou totalmente seu jeito aventureiro, ousado e extravagante. Ela o amava mais que tudo, pensava mais nele do que em si, e se orgulhava disso. Sua maior alegria foi quando se casaram, e logo após quando descobriu que estava grávida.

Cresci rapidamente, depois do pequeno problema que tive ainda recém-nascido. Os anos passaram-se e eu era uma criança sadia e alegre brincando de bolinha de gude na rua de casa com vários outros meninos.

Uma das coisas que tenho mais claro na minha memória é quando meu pai chegava, e eu o esperava ansioso, e então jantávamos os três juntos.

O primeiro prato era sempre uma sopa, havia dias que parecia um caldo sujo, mas não deixava de tomá-lo, pois sabia que isso ofenderia a minha mãe. O segundo prato era alguma carne bem temperada e bem assada, pois meu pai odiava a carne sagrando, isso eu me lembro bem, por que houve uma vez que ele teve uma discussão com minha mãe em relação a isso, coisa pequena de casal, em toda casa há isso, mesmo naqueles tempos. E o terceiro prato, que era o que eu mais gostava, era a sobremesa. Normalmente era um doce caseiro feito por minha mãe ou uma fruta simplesmente, o que era coisa cara naquela época também.

Não podia comer à tarde, ela nunca deixou, o que fazia meu apetite crescer incrivelmente na hora das refeições... Pensando bem, ela agia certo. O jantar sempre era silêncio, apenas um olhando nos olhos do outro, até quando meu pai falava sobre alguma coisa interessante que havia feito no trabalho no dia ou falava sobre dinheiro com a minha mãe, eu apenas assistia eles conversando enquanto me embriagava com um copo cheio de leite ou água... Apenas aos 12 eles deixavam-me acompanhar-lhes no vinho, até ponto certo, mas eles enchiam até a metade para que eu não tivesse problemas mais tarde.

Quando o jantar acabava, o ritual era sempre o mesmo: Levantava-me educadamente como minha mãe havia me ensinado, ia para meu quarto, lia algum livro e acabava dormindo. Eles não precisavam mandar mais, sempre foi assim. Meu pai e minha mãe eram um casal feliz em termos matrimoniais, eles definitivamente se amavam muito. O que me deixava de certo modo muito feliz, qual criança pequena gosta de ver seus pais brigando? Eu gostava daquele ambiente qual vivia, eles sempre foram bons pais, um bom casal.

Eles sempre foram vistos como um casal feliz com um lindo filho, que era muito bem educado. Minha mãe era rígida no requisito educação, e deixava bem claro isso. Eu tinha que ser um cavalheiro, pois a Educação era super valorizada, e sempre era um bom disfarce para uma mente brilhante, segundo ela.


Quando tinha oito anos, minha mãe deu a luz a Apolline, que ao contrário de mim nasceu saudável e bem nutrida. Foi a alegria de meus pais ter uma menina em casa. Uma menininha com poucos fios de ouro na cabeça que dormia tranquilamente como um anjo e nunca tinha problemas com nada.

E depois de dois anos, Irma, nasceu. Ao contrario de Apolline era brincalhona e adorava colo, principalmente o meu, que era apenas no qual dormia tranquilamente depois de uma tarde longa de brincadeiras.

Nossos hábitos mudaram muito, meu pai trabalhava feito um louco enquanto minha mãe cuidava das meninas. E eu, bem, divertia-me jogando bolinhas de gude com uns amigos a tarde toda, chegando com as calças sempre sujas ou rasgadas, o que fazia minha mãe ficar brava; quando não brincava com minhas irmãzinhas; eu fazia isso.

Então, quando completei 13 anos, comecei a ajudar meu pai fazendo pequenas entregas pela cidade... Cartas, Telegramas, Documentos. Não era muita coisa, mas era um começo. Gostava de ajudá-lo, pois, de fato, nunca foi estudioso e isso me ocupava... E sempre tinha uma recompensa... Em certos lugares só havia mulheres trabalhando, o que me deixava ocupado à tarde toda enquanto elas me mimavam e falavam pequenas obscenidades em meus ouvidos, o que acho hoje em dia engraçado uma mulher de vinte e poucos anos dando bola para uma criança como eu era naquela época.

Tinha cabelos longos que sempre os deixava presos, e uma aparência de menininho ainda, meu nariz ainda era grosso e meu olho não tinha clareado por completo, e a não tinha a expressão que hoje tem, mas apesar de ser bem alto, parecia pelo menos... Dois anos mais velho. Elas ficavam a passar poucas madeixas que soltavam de meu cabelo caindo pelos meus olhos por causa da correria para trás das orelhas, e davam uma risada gostosa e sedutora como se isso não me deixasse vermelho, talvez fosse a intenção delas mesmo: deixar-me vermelho.

Nada como abusar de uma criancinha como eu era na época, ainda mais sendo filho de quem era, Max Vigée-Lebrun era conhecido pela sua beleza além de seu extraordinário trabalho como Advogado. Era um homem elegante, de fala séria e galanteador. Extremamente simpático com as damas, deixando-as rubras sempre que podia, e um grande amigo para os cavalheiros de modo que era aprovado por todos os lados. Porém, era um pouco desapontante para as damas, quais tentavam ter um relacionamento mais sério com ele além do profissional – Ele sempre amou minha mãe, e nunca a desapontaria com uma traição. E eu, como seu filho, era uma boa propaganda, na verdade, eu no seu lugar faria o mesmo.

Quando fui crescendo mais, sabia lidar melhor com elas. Aos meus dezesseis, já sabia retribuir as provocações de modo que as deixassem sem fala. Algumas delas deslumbravam-se ou iluminavam-se a me ver na porta das lojas quando chegava com algum recado de meu pai, e logo me puxavam para algum canto usando o pretexto que precisava falar em particular comigo ou dar-me algum recado que se encontrava no escritório nos fundos. Enquanto suas mães abusavam de mim... De certo modo; as suas filhas ficavam rubras a me ver sem nenhuma fala. Sempre fui um menino bonito, não posso negar, e sempre tive fala mansa. O que as deixavam por assim dizer... Loucas.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

História de minha Família (Capítulo 1)

.
Minha família data desde o Império Carolíngio segundo aos registros. Pelo o que eu sei em sua terceira geração, quando os netos de Carlos Magno assinaram o Trato de Verdun, (843), minha família já habitava a Área Germânica, mesmo com nossos nórdicos antigos quais povoaram aquela região desde sempre.

Obviamente, viemos do Império de Luis o Germânico, atual Alemanha. Nossa família sempre pertenceu à Alemanha, não há relatos sobre outra origem, sempre estivemos na lá, ela sendo ou não ela. E posso dizer com orgulho isso.Quando o Império de Luis caiu, entre as cinco famílias que controlavam o país, a minha se encontrava com forte parentesco com uma delas. Mas, com o passar dos anos, nos fomos perdendo nosso poder e nossa voz ativa, mas ainda éramos respeitados por todos que sabiam de nossas origens, além de contas, meus antepassados acabaram por comandar junto com a nossa família qual estava no poder. Nunca gostamos disso; estar no poder ou auxiliar; acredito, mas apenas não achávamos preciso, talvez – porém, gostávamos de ter essa importância e bajulação, qual família daquela época não gostaria?

Com o tempo, que nunca pára, a nossa terra estava sofrendo modificações rapidamente, e as velhas idéias e conceitos estavam caindo. Muitas coisas mudaram. Meus familiares foram se afastando cada vez mais da sociedade, e indo para o campo. Por volta do século XV, minha família começou a fazer casamentos – os quais não eram mais entre parentes... -, com renomadas famílias francesas. Entre elas, Vigée-Lebrun - a maior de todas. Era uma família muita bem dita, e de sangue nobre, primos distantes do Rei Luís XI (o atual rei da França, na época).

Para ambas as famílias foi muito benéfico, por que de fato... Por baixo dos panos, se me permitem dizer, eles estavam falidos, sem ajuda do Rei – que acredito, com certeza, nem se lembrava de sua existência -, e nós sem boa fama (não diria boa fama, apenas... Sem fama), pois havíamos perdido nossa voz ativa na política.

O casamento de Johannes, meu ascendente e Marguerite Vigée-Lebrun, foi um casamento bem seco. Tiveram apenas um filho homem: Hans. Casou-se também com uma Vigée-Lebrun, prima de Marguerite, e teve também apenas um filho homem com sua esposa (pelo menos, com ela apenas um filho legítimo). E assim, de geração após geração apenas filhos homens nasceram, e nunca nascendo nenhuma mulher portadora de nosso sangue. Todos muito parecidos, homens altos, fortes... Loiros de olhos claros, normalmente azuis contornados com verde ou vice-versa. Germânicos no sentido real da palavra.

Em termos políticos, preferimos ficar de fora, pois apesar de ainda ter muito peso em nossas alegações - por termos pertencido há uma das cinco famílias indiretamente -, não queríamos nos envolver na Política no país.

A religião de minha família foi o Luteranismo (Protestantismo na tradição de Martinho Lutero). Meus antepassados seguiam fielmente tudo que Martinho Lutero dizia e fazia contra a Igreja, apesar de novamente estarem longe para acompanhar tudo de perto, mas acreditavam em sua palavra. Pelos manuscritos que restaram, ficaram muito desamparados e tristes pela sua morte em 1546, o que os levou a ficar fora de uma voz ativa na religião também. Como dizia Wolf, um antepassado, foi um jantar bem triste, não apenas para eles e sim para grandes príncipes de toda Alemanha.

A família vivia bem longe de pontos comerciais e de ‘grandes’ cidades. Sempre preferimos morar no campo, para ficar distantes de tantas revoluções... Éramos do tipo de pessoas conservadoras e ligadas às velhas tradições, exceto na religião – da qual fugimos da Católica, mas não apenas nós; foi algo bem comum na realidade.

A família guardou para si a grande fortuna e riqueza, que apenas aumentou conforme os anos. E alguns séculos se passaram, não houve muitos acontecimentos importantes, pois foram citadas nos arquivos apenas coisas comuns... Como faturas, impostos, contas, papéis falando dos pertences da família, escrituras de grandes áreas rurais, tsc...

Até meus dezessete anos já havia lido todos os relatos da família que encontrei.

Meu avô, que nasceu no ano de 1864, e cuidou de todos os pertences da nossa família muito bem, deixados por seu pai, antes do seu falecimento. Athanasius - meu avô, virou um grande industrial, estávamos em plena Segunda Revolução Industrial. Bismarck, que liderou a unificação do país, fez que a Alemanha entrasse na Industria de forma forte e significante na Economia Mundial.

E meu avô acreditando que no princípio de tudo isso poderia dar bons frutos para frente, investiu grande parte de sua fortuna nisso.

Comprou uma indústria perto de Berlim de Tear Mecânico e Maquinas de Fiar. E com o tempo foi a lapidando e reformando, transformado-a em uma Grande Industria da região. Ele sempre ficava na cidade, cuidando de negócios e deixava a família na casa de campo, sua esposa com seus dois filhos: Anna, sua mulher, e Antonin, o filho mais velho e Max, o mais novo.

Anna morreu por causa de uma doença, que mais tarde vieram a descobrir que era um o bacilo do tétano, da peste (bubônica e pneumônica). Foi muito exaustivo para todos os membros da família, contava meu avô em seu diário, pois sua morte foi agonizante e longa. Athanasius acabou por procurar um casamento novamente, tinha dois filhos pequenos e precisava de uma mulher em casa além de sua governanta (qual era sua amante desde que era adolescente, ela uma mulher de postura e ele um jovem se descobrindo, é claro, como todo Vigée-Lebrun, não deixaria por desejar).

Então em 1888, conheceu sua nova esposa em congresso, do qual havia participado. 1889, ele se casou com uma linda Austríaca: Alexia. Sua nova esposa era muito mais nova que ele, ela tinha 15 anos e ele 25. Tinha cabelos loiros e olhos verdes, também tinha um formoso corpo, pelo menos... O colo era branco e chamativo, usando suas palavras de Athanasius. Ele sempre citava isso em seu diário.

Alexia sempre cuidou bem de Max – meu pai -, e de Antonin – meu tio que nunca cheguei a conhecer -, apesar de não ter muita paciência com ambos. Mas não tiveram filhos, ela nasceu seca, e nunca pode ser agraciada com um menininho ou uma menininha, o que frustrou muito meu Avô – ele amava crianças, e acabou se entristecendo por seus dois filhos terem crescido e os gritos e risadas de crianças já não mais existirem na mansão Vigée-Lebrun.

Isso levou ao afastamento de ambos durante os primeiros anos de casamento, porém, quando Alexia foi tomando idade adulta voltou a atrair Athanasius, pelo fato de ter se tornado mulher com porte e pose. E novamente a harmonia reinou entre o casal, porém uma coisa ainda causava-lhes aborrecimento: o início da Primeira Guerra Mundial.

Então, com a morte de Francisco Ferdinando, ambos ficaram a favor da Guerra. Foi quando meu tio, Antonin, acabou indo para a Batalha de Marne, e morreu em combate. Meu avô, cheio de desgosto faleceu – alguns registros dizem que ele teve um infarto ao receber a noticia e não resistiu - e junto a ele, minha avó por solidão e depressão, mesmo tão nova. Isso a fez tirar na própria cabeça. Ambos machucados pelas feridas da guerra, e não suportaram a perda de seu filho; pois apesar de tudo, Alexia o considerava assim: Um filho.

Meu pai, com seus 28 anos teve que seguir sua vida, ele estava recém casado com minha mãe: Elga. Nossa família entrou em crise, e perdeu tudo que havia conquistado desde nossos princípios. A indústria, carros, terras, casas... Tudo! Tamanha crise foi. Então, meu pai com uma boa formação conseguiu um trabalho que se sustentasse ele e sua esposa, viviam em Berlim, e estavam levando a vida, enquanto a Guerra não terminava.

E então, em 1918 eu nasci. Para aqueles que conhecem a origem de meu nome, podem suspeitar que é uma homenagem, e posso afirmar que estão certos.

Raphaël, vem do Hebraico, e significa ‘Curado por Deus’. Eu nasci desnutrido e sem chances de viver. E por algum motivo inexplicável, eu consegui viver. E minha mãe, que passava dias rezando para Deus, deu-me esse nome quando me recuperei. Cresci ajudando meus pais em tudo que podia, lendo tudo que nos restara das nossas imensas bibliotecas.


Introdução

.
- Como Deus pode justificar o sofrimento de uma criança? - Fiódor Dostoiévski


Falaram-me que deveria pronunciar algo sobre minha pessoa, e aqui estou. Mas devo alertá-lo que não será muito interessante, enfim... Antes do meu nascimento, minha família tinha grande riqueza e tinha sangue azul nas veias, particularmente acho uma bobagem. Com o final da Primeira Guerra, meus familiares sofreram vários danos financeiros, e perdemos tudo. Carros, fazendas, casas. A nós, só restou um teto e um bebê recém nascido para cuidar. Nasci no início do século XX, no último ano da primeira grande guerra.

Em 1918, Elga, minha mãe, deu à luz um bebê que parecia ter morte certa: eu. Por um milagre, continuei vivo. Os anos passaram, e tentamos sobreviver; e nos saímos bem, algum tempo depois de meu nascimento, minha mãe pariu mais duas lindas meninas, Irma e Apolline. Quando a Segunda Grande Guerra chegou, o medo voltou a atormentar minha família. Eu podia ver o horror nos olhos de minha amável mãe; ah, apavorava-me saber que isso atormentava meu pai. Fui convocado para lutar na grande (não tão grande) batalha de Stalingrado, e mesmo não querendo abandonar meus pais, fui por meu país. Ah sim, já devem imaginar qual seja ele: Alemanha. Sim, fui nazista, mas hoje em dia não sou mais: não há porque, vi que nada daquilo viveria por muito mais tempo. Aquele partido tinha idéias equivocadas, devo admitir, mas não deixo de pensar de como superior é minha raça, pura - apesar de não ter tanta convicção como meus companheiros de batalha. Logo fui atacado brutalmente, e moribundo fiquei naquele campo molhado de sangue. (Se soubesse o que ocorreria, nunca teria ficado em um lugar que tivesse tanto sangue. Ah! Acredite, atrai muitos ratos!) Bem, fiquei lá, desejando a morte, mesmo sabendo que a vida é um milagre e lutamos para estar nela, e devemos lutar para não a deixar, mas... A dor estava insuportável, mas não sabia mais se aguentaria. Havia levado um tiro bem perto da barriga, e não sei como morri na mesma hora. Fiquei agonizando com dor, até que um pouco antes de desmaiar, ouvi alguns passos. O dono deles me retirou daquele local, tinha certeza. Não me vinha mais nada aos olhos, minha visão estava negra e deteriorada. Logo adormeci e, quando acordei, estava em um velho celeiro muito longe de qualquer campo de batalha, provavelmente. Sobre a palha fiquei observando a atmosfera, quando senti sua presença, então uma sensação horrível me veio. Ah, em poucos segundos ele havia me pego e drenado meu sangue, não sabia o que fazer ou dizer e nem tive tempo. E fiquei deitado no chão sujo enquanto ele me olhava com um sorriso na face, aquela antiga e polida face egípcia, que nunca mais me saíra da memória. Não demorou muito até que a dor entrasse em cada poro de minha pele, sentia a carne se desprender, fluídos mal-cheirosos saírem de meu corpo. Ele falou breves palavras de como sobreviveria sendo um ‘bebedor de sangue’ – fiquei imaginando o que seria isso na época, bem, acabei por descobrir no final -, e se foi. Ah! Maldito seja aquele monstro, que nem um bom mestre fora! Duraram dias minha transformação, meu organismo estava fraco; e eu não queria aquilo, sinceramente. Eu desejava a morte.

Logo, era um vampiro, bem poderoso posso dizer hoje em dia, e mal sabia usar meus poderes, engraçado era no principio, acredito.Voltei a minha cidade de nascença, Berlim, e a vi devastada pelo exército Russo. Quando cheguei a minha casa, meus genitores estavam mortos a tiros, e minhas delicadas irmãs, Irma e Apolline haviam sido violentadas brutalmente e mortas. Meu coração doeu. Tirei-os da casa, e os enterrei no jardim. Não era digno para eles, mas era um começo. Decidi que minha vida mudaria a partir daquele instante, e de fato mudou. Não seria mais um homem fraco. Mas estava enganado e me arrependi amargamente por estar. Retirei-me de Berlim o mais rápido que pude e me dirigi a Paris; minha doce Paris, aonde conheci minha primeira e única cria, Angelique du Coudray. Foi quando morri uma segunda vez...

- Deus morreu - Nietzsche