Prefácio

Aqui, neste quarto escuro e úmido, começo a escrever para satisfazer minha alma e para tentar tirar o amargo sabor de minha boca. Estou sentando em uma cadeira confortável, enquanto ouço a chuva que lá fora cai. Algo que aprendi com o tempo, é que eu só fico feliz, ou tenho um pouco de felicidade, enquanto caminho na chuva; e na realidade sinto por estar perdendo-a neste instante A vida, ou pelo menos, a minha não-vida se resume em uma vasta solidão qual eu não tenho controle. Minha criança dorme no quarto ao lado, posso ouvir sua respiração deste comôdo. A vida pela qual fui forçado a viver não era aquilo que um dia eu cheguei a imaginar. A dor não tem preço, mas, meu caro leitor, não imagine que eu sou alguém que fica se lamentando por viver ou por ainda caminhar pela Terra, além do mais, eu tenho a opção de me matar. Ou deixar que você, meu mais novo amigo, decida meu destino. Aqui, nestas páginas amareladas pelo tempo, na escrita corrida, descobri que a minha única culpa era de fazer bem meu trabalho: Matar.


Chamo-me Raphaël Vigée-Lebrun, e a minha história irei contar, talvez para passar meu tempo revivendo minhas trágicas memórias, talvez, tentando deixar algo meu para o mundo, quem sabe. É um prazer, meu adorado leitor e devoto melhor amigo.



De seu Anjo Caído,


Raphaël Vigée-Lebrun.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Introdução

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- Como Deus pode justificar o sofrimento de uma criança? - Fiódor Dostoiévski


Falaram-me que deveria pronunciar algo sobre minha pessoa, e aqui estou. Mas devo alertá-lo que não será muito interessante, enfim... Antes do meu nascimento, minha família tinha grande riqueza e tinha sangue azul nas veias, particularmente acho uma bobagem. Com o final da Primeira Guerra, meus familiares sofreram vários danos financeiros, e perdemos tudo. Carros, fazendas, casas. A nós, só restou um teto e um bebê recém nascido para cuidar. Nasci no início do século XX, no último ano da primeira grande guerra.

Em 1918, Elga, minha mãe, deu à luz um bebê que parecia ter morte certa: eu. Por um milagre, continuei vivo. Os anos passaram, e tentamos sobreviver; e nos saímos bem, algum tempo depois de meu nascimento, minha mãe pariu mais duas lindas meninas, Irma e Apolline. Quando a Segunda Grande Guerra chegou, o medo voltou a atormentar minha família. Eu podia ver o horror nos olhos de minha amável mãe; ah, apavorava-me saber que isso atormentava meu pai. Fui convocado para lutar na grande (não tão grande) batalha de Stalingrado, e mesmo não querendo abandonar meus pais, fui por meu país. Ah sim, já devem imaginar qual seja ele: Alemanha. Sim, fui nazista, mas hoje em dia não sou mais: não há porque, vi que nada daquilo viveria por muito mais tempo. Aquele partido tinha idéias equivocadas, devo admitir, mas não deixo de pensar de como superior é minha raça, pura - apesar de não ter tanta convicção como meus companheiros de batalha. Logo fui atacado brutalmente, e moribundo fiquei naquele campo molhado de sangue. (Se soubesse o que ocorreria, nunca teria ficado em um lugar que tivesse tanto sangue. Ah! Acredite, atrai muitos ratos!) Bem, fiquei lá, desejando a morte, mesmo sabendo que a vida é um milagre e lutamos para estar nela, e devemos lutar para não a deixar, mas... A dor estava insuportável, mas não sabia mais se aguentaria. Havia levado um tiro bem perto da barriga, e não sei como morri na mesma hora. Fiquei agonizando com dor, até que um pouco antes de desmaiar, ouvi alguns passos. O dono deles me retirou daquele local, tinha certeza. Não me vinha mais nada aos olhos, minha visão estava negra e deteriorada. Logo adormeci e, quando acordei, estava em um velho celeiro muito longe de qualquer campo de batalha, provavelmente. Sobre a palha fiquei observando a atmosfera, quando senti sua presença, então uma sensação horrível me veio. Ah, em poucos segundos ele havia me pego e drenado meu sangue, não sabia o que fazer ou dizer e nem tive tempo. E fiquei deitado no chão sujo enquanto ele me olhava com um sorriso na face, aquela antiga e polida face egípcia, que nunca mais me saíra da memória. Não demorou muito até que a dor entrasse em cada poro de minha pele, sentia a carne se desprender, fluídos mal-cheirosos saírem de meu corpo. Ele falou breves palavras de como sobreviveria sendo um ‘bebedor de sangue’ – fiquei imaginando o que seria isso na época, bem, acabei por descobrir no final -, e se foi. Ah! Maldito seja aquele monstro, que nem um bom mestre fora! Duraram dias minha transformação, meu organismo estava fraco; e eu não queria aquilo, sinceramente. Eu desejava a morte.

Logo, era um vampiro, bem poderoso posso dizer hoje em dia, e mal sabia usar meus poderes, engraçado era no principio, acredito.Voltei a minha cidade de nascença, Berlim, e a vi devastada pelo exército Russo. Quando cheguei a minha casa, meus genitores estavam mortos a tiros, e minhas delicadas irmãs, Irma e Apolline haviam sido violentadas brutalmente e mortas. Meu coração doeu. Tirei-os da casa, e os enterrei no jardim. Não era digno para eles, mas era um começo. Decidi que minha vida mudaria a partir daquele instante, e de fato mudou. Não seria mais um homem fraco. Mas estava enganado e me arrependi amargamente por estar. Retirei-me de Berlim o mais rápido que pude e me dirigi a Paris; minha doce Paris, aonde conheci minha primeira e única cria, Angelique du Coudray. Foi quando morri uma segunda vez...

- Deus morreu - Nietzsche

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